Entrevista com Adriano66 Por Mayana666 - Faculdade de Comunicação da UFJF - Maio de 2006

Festival de Bandas Novas

O Início
O Festival de Bandas Novas, que há muitos anos faz parte do calendário da cidade de Juiz de Fora, surgiu a partir de uma dificuldade.

As primeiras de várias!
A criação de um estúdio de gravação por Adriano 66 e alguns parceiros tinha a intenção de ampliar o espaço de ensaio da banda, Patrulha66. E, o objetivo de criar oportunidade para a que a cena local também tivesse esse espaço. Em 1998, o estúdio passava por fases difíceis.

O estúdio
Quando viemos do Rio de Janeiro de volta cá (1994), a gente tocava fora, São Paulo, Rio, tínhamos estourado com a banda. Tínhamos feito sucesso com a versão rock do sertanejo Pense em Mim. A gente montou um estúdio, o primeiro da cidade, pra poder ensaiar a banda e dar condições de outras bandas crescerem e ajudar a cena aqui da cidade. As bandas não tinham lugar de ensaio. O estúdio passou por fases complicadas de parceiros e má administração e o estúdio quebrou.

O Festival
Na mesma época, Marquinho, que ainda pertencia ao Patrulha66, realizava o Festival do Pró-Música. Enquanto Adriano fazia cobertura do festival para a rádio Róqui e produzia o festival de bandas no Parque da Lajinha desde 1985. A conversa entre os dois, o problema do estúdio e a intenção de contribuir para a cena alternativa da cidade, fez surgir o Festival de Bandas Novas. Era a junção da rádio, do festival do Pró-música, e do festival de bandas do Lajinha com importantes objetivos, dentre eles, salvar o estúdio. Inscrever no Bandas Novas era pagar pra ensaiar no estúdio, ter como prêmio a gravação feita no mesmo e tocar. Em 1999, é realizado o primeiro, com 43 bandas tocando em escolas. Uma parceria da Prefeitura e Funalfa com a organização. Desde o surgimento a maior característica do Bandas é conseguir difundir a cena alternativa da cidade. Um feito que se verifica nos dias de hoje, no qual a cidade se desponta com enorme cena metaleira e seus adjacentes.

A característica do Festival

O Patrulha foi a banda fundadora do estilo (alternativo) da cidade. Começamos a tocar em 1984. Nessa época existiam bandas que só tocavam cover como Beatles Forever, e alguns de hard rock tradicional inspirado nas bandas estrangeiras como Mercúrio Cromo, Apocalipse ambos com o repertório repleto de covers. Patrulha é o mais antigo som rock autoral de JF. O 1º a fazer disco, o 1º a tocar em radio e TV em rede nacional, Patrulha é precursor e junto com o Força Desarmada representavam o movimento punk nacional em Minas Gerais que era integrado com o Brasil inteiro e sempre tocou músicas próprias. Surgiu junto, não tem Ratos de Porão na frente! É cultura alternativa pura! O punk veio pra isso, quebrar aquele negócio de cover, essas bandas que já existiram. E aí começou evoluir, de punk pra metal é tranqüilidade.


O Primeiro Festival (1999)
Em 1999 foi o primeiro. Deu 43 bandas e fizemos nas escolas. A minha proposta, (que até hoje eu estou sozinho por isso), era fazer isso direto com o público. Eu não gosto de fazer isso como um evento, como o Marquinho gostava. A Funalfa que era parceira cedeu as escolas e fizemos lá as sete eliminatórias. O sistema era o mesmo que é hoje. Tinha o selo da rádio que toca as bandas, o da prefeitura que banca o evento, quatro jurados. Eles dão as notas, o público vota e acabou.

A evolução
O Festival cresceu e hoje eu produzo bem mais rápido do que o primeiro. Agora há uma diferença total. A gente começou trabalhando com o som da Funalfa. Depois no segundo ano acabou colocando um som melhorzinho. Passamos para o Tupi, por isso começamos a cobrar ingresso pra pagar um som melhor. Depois, continuou no Tupi cobrando ingresso também pra poder dá um prêmio melhor. Passamos a gravar as bandas pra manter divulgando durante o ano. Aí, no quarto ano, incluí a internet, mesmo o Marquinho não concordando, mas eu achava que tinha tudo a ver com o Festival. No sexto ano a gente rompeu porque ele queria trabalhar como evento e achava que não cabia mais isso pra mim. Fizemos um acordo, fiquei com a marca e fiz o festival 2005. A evolução é total. De um som vagabundo pra um som máximo dentro do possível de nossa verba. Um gravação de um cd pirata, feito em casa, para cópias duplas em estúdio profissional. Dois mil reais de prêmio, que é pouco, mas é o que a gente pode dar.

A Mudança
Eu procuro sempre melhorar. Uma qualidade de som, para que as bandas toquem em equipamentos que pareçam mais profissionais. Procurei evoluir o premio, apesar de eu achar que a competição está por fora, ou seja a premiação não seria em prêmio. Eu vou dar a premiação para o primeiro lugar, porque eu tenho que estimular de alguma forma. Mas eu fiz uma premiação que vale a todos que participaram que chegam num nível legal de bandas, que é o cd com os finalistas e os convidados. Esse ano nós vamos gravar dezoito bandas, e convido mais sete ainda. É um cd duplo, distribuído gratuitamente, gravado num estúdio porreta. O músico tem uma experiência real de gravar num estúdio profissinal.

As Críticas
É muito difícil. Em 2006 são 66 bandas inscritas, cinco pessoas em cada banda são 330 moleques que acham que são foda. Todo mundo gosta do que faz. A gente não julga ninguém. Selecionamos algumas bandas que podemos ajudar a trabalhar. Não são todos que podemos ajudar. Se pudesse, seria uma maravilha! Quando você vai premiar um grupo, são cinco pessoas que vão ficar felizes e se tornar amigos e outras 325 pessoas vão ficar contra você. Embora esses 16 ou 18 grupos que gravam ainda ficam mais ou menos por causa do cd. Mas os outros todos acham que é panela, que você ajudou só um. Eu nem escuto direito as bandas, só fotografo. Escuto mesmo é no cd, e levo a culpa ainda. Levo direto, não tem jeito.

O Motivo
Primeiro é o amor ao rock’n’roll. Toco há tanto tempo, essa é a vida que escolhi. Fiz essa opção de vida. Segundo, que acho que a coisa mais importante que veio junto comigo, desde nascença, por causa da minha religião, “o importante na vida é dar uma vitória à uma pessoa”. Se eu vencer vai ser uma coisa legal, agora, se eu vencer dando uma vitória à outra pessoa vai ser muito melhor. Então essa é a onda, estimular esse pensamento. Embora que muitas bandas que entram no Festival não pensem assim, apesar disso ser comunicado lá na página (link reflexão). Mas está bom, fazer o que, né? Eu faço a minha parte.

As Edições
Eu gostei de todas porque cada uma é experiência nova. No Tupi quando era fechado, o som era ruim e eu tinha que brigar com a aparelhagem e os “gatilhos”. No segundo Tupi, o som já era bom, aparelhagem nova e o cd que ia acontecer. No terceiro Tupi, era o último, eu tinha que despedir. Então nós fizemos naquela arena de terra. Já era outro tipo de produção. Depois, na Praça Antônio Carlos o público, que não ia porque a praça era queimada de mendigos e funkeiros. Foi aquele trabalhão. Mas agora está sendo legal na praça porque o pessoal já esta se acostumando. Cada ano é um passo, eu gosto de todos.

O Bandas e Juiz de Fora
O trabalho do Bandas é da Prefeitura. Sou eu que produzo, a idealização é minha e do Marquinho. Mas pra mim o Festival é deles. Eles é que liberam a verba, sem eles não tem festival. Eu poderia até fazer um festival paralelo, é diferente, como eu faço com o “Quem toca cover ta por fora”. Mas pra ser Bandas Novas, com aquela cara, com gente pichando, reclamando que não ganha, aquelas coisas, ganhando os prêmios, acho que teria que ter o lance da Prefeitura. Vamos torcer para todas as administrações que vierem, acreditem também.

As Histórias
Cada ano é uma coisa. O Bandas é hilário! Não dá pra contar todas e pra falar a verdade nem consigo lembrar mas a do ano passado (2005) é inesquecível. Apelidei de Bandas Novas X a fúria intestinal dos mendigos. Eu lavava o palco de noite, e eles iam lá e “cagavam” o palco todo pra não ter Bandas noutro dia, porque ali era a casa deles. Esse ano está tudo legal, eu cimentei o palco, me senti até mal de tirar o banheiro deles. Mas fazer o que. Cada ano tem uma coisa. Cada banda tem sua peculiaridade. O Festival é um projeto único, mas cada parte dele é igual a um movimento de um corpo, cada ano é diferente.

Do Passado
Sinto falta da qualidade das bandas de Juiz de Fora. O Festival vem crescendo. No primeiro tinha 43 bandas, no segundo 86, no terceiro eu tive 50, mas a qualidade era melhor do que as das 86, e tudo daqui. Depois começou a vir as bandas de fora, e essas bandas de fora estão vindo mais preparadas. Perdi aquele controle do início, de saber quem é banda nova e quem é banda velha, mas que passa de nova. Me adaptei mas sinto falta das bandas de Juiz de Fora, elas se evadiram do Festival. Primeiro porque esse ano é ano de troca de pele, igual de cobra. Tem um ciclo a música rock de Juiz de Fora. Desaparecem algumas bandas, e surgem novas, As muito novas não podem participar ainda e as muito velhas vão embora porque já participaram demais. Então 2006 é um ano mais vazio, das 66 bandas só 23 são daqui.

O Futuro
Eu vejo que no Bandas Novas, se a cena de Juiz de Fora não responder e se no ano que vem não houver tempo para as bandas novas crescerem e as velhas realmente desaparecerem. Eu acho que vamos ter um Festival só com bandas de fora. Porque a tendência é cada vez mais vir bandas de fora, e olha que não aceito bandas de muito longe porque se eu aceitasse bandas de Alagoas, Curitiba, e estados mais distantes o Bandas Novas estava superlotado.

Deixar para trás
Eu gosto de ter deixado pra trás a parte de cobrar, de tornar o evento gratuito, aberto, popular. A cultura não pode ser elitizada. Como diz o artista Milton Nascimento, (apesar de eu não gostar nada de mpb): “O artista tem que estar onde o povo está”. E o Festival pertence ao povo. Então a melhor forma de transformar a cultura alternativa em popular é levar ela em um lugar onde todo mundo possa ter acesso.

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